O que realmente é Cetose?

Todo mundo ou fala que a cetose vai te matar ou que é o sétimo céu! Mas o que é realmente cetose? Vamos mostrar cientificamente o que é cetose, mas o que importa é compreender o conceito e para o leitor fica a aplicação ou não.

A maioria das informações foram tiradas dos posts de Peter Attia, do Eat Academy!

O que é Cetose?

Cetose é um estado metabólico no qual o fígado produz pequenas moléculas orgânicas chamadas de corpos cetônicos (em níveis suficientes). Mas especificamente, o fígado vai transformar a molécula enorme de gordura em moléculas menores (corpos cetônicos) e que praticamente todos os órgãos do organismo podem usar.

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, corpos cetônicos não são exclusivamente cetonas, que é uma molécula orgânica com a estrutura abaixo:

O termo corpos cetônicos refere-se a 3 moléculas: acetona (cetona), ácido acetoacético (cetona) e ácido beta-hidroxibutírico (é um ácido carboxílico, vamos chamar de B-OHB). É o B-OHB que é medido para identificar o estado cetogênico (onde conseguir medidor) e ressalto que a produção desses corpos são naturais.

O nível de B-OHB de uma pessoa normal (sem diabetes, por exemplo) que não está fazendo jejum é de zero . Dentro de um dia de jejum, você pode esperar que este número chegue a 0,2 a 0,4 mM, e cerca de 1,0 mM dentro de 48 a 72 horas de jejum completo, embora isso seja altamente variável, pois depende do metabolismo de cada pessoa.

Corpos cetônicos no sangue são mais bem medidos com o estômago em jejum pela manhã (antes do café, apesar que pode variar de pessoa para pessoa, mas em geral é pela manhã). Aqui estão algumas dicas sobre como interpretar o resultado (Fonte: Andreas Eenfeldt):

  • Abaixo de 0,5 mmol/L, não é considerado “cetose”. Neste nível, você está longe do máximo de queima de gordura.
  • Entre 0,5-1,5 mmol/L está perto da cetose nutricional. Você estará recebendo um bom efeito sobre o seu peso, mas não ideal.
  • Cerca de 1,5-3 mmol / L é o que é chamado de cetose nutricional ideal e é recomendado para perda de peso máximo.
  • Valores acima de 3 mmol / L não são necessários. Ou seja, eles vão dar resultados nem melhor nem pior do que estar no nível 1.5-5. Lembrando que quem é diabético tipo 2 pode ter valores acima de 10mmol/L que é o estado de cetoacidose (depois vamos falar).

A secreção da insulina suprime a produção dos corpos cetônicos. É por isso que, por exemplo, consumindo mais do que cerca de 50g de carboidratos por dia e/ou mais do que cerca de 120-150 g de proteína por dia, torna-se difícil entrar em estado cetótico. Mas o que? Porque isso acontece???? Por que podemos produzir esse corpos cetônicos, já que temos a glicose? Vamos ter que entrar na bioquímica:

Energia

Só para nos maternos vivos gastamos em média 1800 kcal/dia (varia de pessoa para pessoa, é chamado metabolismo basal), só o cérebro necessita de 20% do nosso gasto e ele utiliza preferencialmente a glicose (apesar de ter alguns estudos comprovando a preferencia por corpos cetônicos, mas nada definitivo, vamos trabalhar com a hipótese de que não pode), e ele não pode usar a glicose (300g a 350g) estocada nos músculos (os músculos não possuem a enzima glicose-6-fosfatase, a glicose armazenada em forma de glicogênio no músculo é incapaz de voltar a entrar na corrente sanguínea e é destinada para somente o músculo utilizar, e isso é base para a Dieta Metabólica, do Dr. Mauro Di Pasquale).

Então, o cérebro requer cerca de 400 a 500 kcal de glicose por dia (100 a 120 g). O nosso fígado pode produzir até 200g de glicogênio, o que seria suficiente para o cérebro, mas lembre-se que ainda há o resto do corpo. Então, se eu estou privado de uma fonte alimentar de glicose, que depende unicamente do meu fígado para liberar glicogênio (um processo conhecido como produção hepática de glicose, ou HGO) os estudos mostram que aguentamos cerca de 3 dias. Sabendo disso, como os esquimós não morreram ou mesmo o Dr. Souto, ou eu? Essa pergunta já foi respondida pelo Dr. Souto, e as principais razões são essas:

  • Em pessoas ceto-adaptadas (que estão acostumados a queimar gordura para energia), o cérebro deriva apenas metade de sua energia na forma de glicose – o restante vem de corpos cetônicos.

Então podemos usar os corpos cetônicos para energia, do corpo em geral e a glicose produzida pelo fígado pode ir diretamente para o cerébro, e de quebra, o cérebro também usa corpos cetônicos, enfim, maior disposição e concentração :D.

Ciclo de Krebs

Infelizmente algumas pessoas falam que somente a glicose pode produzir energia, e não foram poucas as que me jogaram na cara o ciclo de Krebs e disseram que o corpo PRECISA de glicose para produzir energia (ignorando o fato do fígado produzir). Pois bem, Peter Attia respondeu essa para mim e a explicação resumida é essa:

Ketone-figures-4-645x663Na ausência de acetil-CoA (produto da glicose)  nosso fígado pode fazer algo chamado beta-hidroxibutirato, um dos três corpos cetônicos que foi descrito acima – de gordura ou proteína, embora iremos preferir usar a gordura para poupar a proteína e evitar perda de massa muscular grave. Agora, a figura acima, a partir de um trabalho de 2001, mostra o ciclo de Krebs demonstrando onde o B-OHB participa.

A razão pela qual uma pessoa faminta pode viver por 40-60 dias é precisamente porque podemos transformar gordura em cetonas e converter cetonas em substrato para o ciclo de Krebs na mitocôndria dos nossos neurônios. Na verdade, quanto mais gordura você tem em seu corpo, mais tempo você pode sobreviver.

Nós evoluímos para produzir corpos cetônicos para que pudéssemos não apenas tolerar, mas também prosperar na ausência de glicose por períodos prolongados de tempo. Sem capacidade de produzir corpos cetônicos não haveria espécie humana.

Em estado de fome sobrevivemos, mas nós não deixamos de consumir carboidratos completamente, comemos da salada, eventualmente do chocolate, do queijo, de algumas raízes enfim, nunca é zero (exceto em jejum). Se mantermos a ingestão de carboidratos em cerca de 20-50 g/dia, e mantendo a ingestão de proteína em níveis modestos, não elevados (porque a proteína é gliconeogênica – ou seja, proteína em excesso será convertido em glicogênio pelo fígado), pode-se induzir um estado chamado de “cetose nutricional” sem recorrer a fome.

Em minha opinião, isso é especialmente indicado para pessoas com dificuldades de emagrecer e diabéticos, como um tratamento. Uma vez alcançado o objetivo de emagrecimento, uma vida no estilo paleolítico é o mais indicado (em geral).

A cetose oferece alguma vantagem no desempenho físico?

Peter Attia diz que não tem uma resposta definitiva para isso, mas que as respostas a esta pergunta são provavelmente as seguintes:

  1. A cetose melhora a capacidade aeróbia? Provável
  2. A cetose aumenta a potência anaeróbica? Não
  3. A cetose aumenta a força muscular? Não
  4. A cetose aumenta a resistência muscular? Provável

Peter Attia diz que uma maneira elegante de testar o impacto relativo de glicose, insulina, e B-OHB na eficiência muscular é “tratar” um coração de rato perfundidos sob as seguintes quatro condições:

  1. Glicose sozinho (G)
  2. Glicose + insulina (GI)
  3. Glicose + B-OHB (GK)
  4. Glicose + insulina + B-OHB (GIK)

E foi isso que este artigo de Yashihiro Kashiwaya et al. (1997) fez (vale a leitura). Eles estudaram o coração porque a ação de trabalho é (relativamente) simples de medir: o débito cardíaco, que é o produto do volume sistólico (quantidade de sangue que o coração bombeia para fora por batimento) e freqüência cardíaca (quantas vezes o coração bate por minuto). Pode-se também medir o consumo de oxigênio, todos os metabólitos intermediários, e, em seguida, calcular a eficiência cardíaca. A eficiência aumenta à medida que aumenta o trabalho hidráulico em relação ao consumo de oxigênio. O que eles descobriram foi:

Microsoft PowerPoint - FiguresOs dois gráficos superiores na figura acima mostram informações semelhantes, ou seja, a resposta do débito cardíaco e do trabalho hidráulico para cada tratamento. (Débito cardíaco é a medição pura do volume de sangue deslocado por unidade de tempo e o trabalho hidráulico é um pouco mais sutil, mede o trabalho mecânico que está sendo feito pelo fluido.)

Adição de insulina para uma carga fixa de glicose (IG) aumenta tanto o débito cardíaco quanto o trabalho hidráulico, mas é significativa apenas no segundo caso. Por outro lado, a adição de B-OHB em glicose (GK) aumenta tanto o débito cardíaco quanto o trabalho hidráulico significativamente. Curiosamente, a combinação de insulina e B-OHB com glicose (GIK) não tem impacto.

O consumo de oxigênio foi significativamente reduzido em todos os casos em relação à glicose sozinha, por isso esperamos que a eficiência cardíaca deve ser muito maior em todos os estados. (Por quê? Porque para menor consumo de oxigênio, os corações foram capazes de proporcionar maior débito cardíaco e realizar maior obra hidráulica.)

A figura na parte inferior direita mostra exatamente isso. Se você está se perguntando por que o ganho de eficiência é tão grande (24-37%), a resposta não é evidente a partir desta figura. Para entender exatamente como e porque a adição de quantidades elevadas de insulina (50 uU / ml) ou B-OHB (4 mM) de glicose (10 mM) pode causar esse aumento de função-passo na eficiência cardíaca, você precisa olhar especificamente como a concentração dos intermediários metabólicos (por exemplo, o ATP, ADP, lactato) variou nas células cardíacas do rato.

Claramente, na configuração altamente controlada de um coração de rato perfundido, cetonas oferecem uma enorme vantagem termodinâmica (28%!). Mas o que dizer do desempenho humano agregado? Não há razão para acreditar que os níveis terapêuticos do B-OHB (através de cetose nutricional) aumentariam a potência anaeróbica, já que o sistema anaeróbio não impacta na energia disponível do sistema (leia no artigo do Yashihiro Kashiwaya et al ou no post do Peter Attia). O mesmo é verdadeiro para a força muscular. No entanto, existem razões para acreditar que a capacidade aeróbia e a resistência muscular podem ser melhoradas com suficiente B-OHB complementando a glicose presente.

Se cada molécula de B-OHB dá a seus músculos mais ATP para menos oxigênio, você deveria gastar menos e não mais energia para a mesma ingestão calórica, certo?

Kevin Hall (em conversa com Peter) do NIH, um especialista em metabolismo e endocrinologia, apontou o erro na lógica acima. Fisiologicamente (ou seja, em cetose nutricional ou mesmo a fome), temos que fazer o B-OHB de gordura. O custo de energia líquida de fazer isso é realmente grande. De acordo com Kevin, a energia fornecida por 4,5 mol de B-OHB é de cerca de -2192 kcal, e para fazer os 4,5 mols de cetonas é necessário -2710 kcal, ou seja, há aproximadamente 20% de perda de energia neste processo. Assim, o ganho de energia fornecido pelas cetonas é na verdade menor do que o custo de energia de fazê-las, pelo menos em teoria.

Isto sugere que estar em cetose nutricional pode exigir uma maior energia global do sistema, enquanto continua a aumentar o potencial de trabalho. Em outras palavras, uma pessoa em cetose nutricional pode aumentar seu gasto total de energia, ao mesmo tempo, aumentando a sua eficiência muscular.

É isso, próximo post vou trazer os principais sintomas da cetose nutricional e como tratar. E em outro post, vamos discutir mais a questão dos exercícios. 

Qualquer coisa, só comentar, que tentarei responder com prazer!!!


Engenheiro químico que aprendeu a cozinhar para obter uma saúde melhor. Em processo de emagrecimento comendo muita gordura e proteína. Entrou numa fase de curtir cozinhar coisas novas. Adora andar de bicicleta aproveitando o ambiente.